Informação é criada ou descoberta?

Hoje não vou falar sobre as leis de conservação de energia; a pergunta aqui é mais metafísica: se um algoritmo puder criar todas as possíveis combinações de caracteres, ele eventualmente vai construir frases que façam sentido. Todas as possíveis combinações, incluem todos os textos possíveis, e, sendo assim, todo o futuro e o passado, tudo o que já foi e vai ser escrito.

Neste caso, a informação encontrada nas páginas foi criada?

Essa idéia não é recente, nem minha. Em seu conto de 1941, A Biblioteca de Babel (texto na íntegra), Jorge Luis Borges idealiza uma biblioteca infinita que segundo o narrador tem todas as possibilidades de combinação de letras possíveis, de texto possíveis, que não é infinita, mas é gigante. Desde repetições de caracteres ou palavras até textos e livros inteiros:

Tudo: a história minuciosa do futuro, as autobiografias dos arcanjos, o catálogo fiel da Biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a demonstração da falácia desses catálogos, a demonstração da falácia do catalogo verdadeiro, o evangelho gnóstico de Basilides, o comentário desse evangelho, o comentário do comentário desse evangelho, o relato verídico de tua morte, a versão de cada livro em todas as línguas, as interpolações de cada livro em todos os livros; o tratado que Beda pôde escrever (e não escreveu) sobre a mitologia dos saxões, os livros perdidos de Tácito.

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Borges descreveu a Biblioteca com salas hexagonais e escadarias infinitas

Recentemente um autor estadunidense Jonathan Basile desenvolveu um portal para emular a Biblioteca, repetindo a mesma proeza sem a necessidade do espaço quase infinito pra acomodar todos os volumes.

Quase a mesma proeza. Na versão digital,

Basile ainda está limitado a páginas de 3200 caracteres, com as 26 variações de letras do alfabeto inglês em minúscula, mais ponto final, espaço e vírgula. Isso totaliza, em sua versão atual, 104677 livros – isso mesmo, 10 elevado à 4677; como comparação, há aproximadamente 1080 átomos no universo.

No entanto, isso não quer dizer que ele tenha escrito 104677 livros. O que ele criou foi algo muito mais inventivo: ele criou um algoritmo que codifica e decodifica a localização do texto da biblioteca no texto em si. Assim como seu homônimo, cada livro recebeu um código do volume, de prateleira, de parede e de hexágono (a Biblioteca de Babel era organizada da mesma maneira). O número da página de cada livro é jogado no algoritmo desenvolvido por Basile, que gera um número em base-10, que por fim é convertido em um último número base-29, que cria a página, única, que está sendo lida.

O número de cada página não só aponta mas é convertido no conteúdo da página em si!!

Ou seja, há uma (quase) uma infinidade de páginas a serem descobertas no acervo. Você pode ir até lá e começar a procurar (embora acentos e letras como ‘ç’ do português não façam parte do algoritmo). Todas as permutações possíveis com estes 29 caracteres em 3200 posições estão lá. Tudo o que você quiser. Sua data de nascimento, o descobrimento do Brasil, o nome da sua mãe, tudo está lá. Inclusive esta frase:

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Parede (Wall) 1, Prateleira (Shelf) 3, Volume 3, Página 61

Link para esta página aqui

Qualquer texto que você procurar de menos de 3200 caracteres, pode ser encontrado na biblioteca. Segundo Basile a biblioteca completa poderia ter textos com 1,312,000 caracteres, logo livros inteiros. Você também pode, assim como o narrador do conto do Borges, navegar entre as incontáveis páginas e registrar o que você encontrar no fórum do site.

O futuro registrado?

Isso tudo pede uma outra discussão: se todas as variações de texto estão escritas lá, também estão textos que ainda não foram escritos. Estes textos foram criados por quem? Pelo algoritmo ou pela pessoa que criou? Se eu procurasse por tempo suficiente, encontraria o dia exato da minha morte, o resultado de jogos e da mega-sena, e todos os eventos futuros.

Mas isso significaria que o universo é não-determinístico?


Não necessariamente. Assim como eu encontraria uma página dizendo exatamente o que está escrito no jornal de amanhã, eu encontraria 100,000 páginas com notícias erradas de amanhã. Resultados certos assim como resultados errados dos jogos e da mega-sena, e incontáveis dias errados em que eu morro.

Apesar de ser até um pouco assustador você encontrar qualquer informação possível nas páginas da biblioteca – claro, dentro dos limites do algoritmo – , não significa que essa informação foi realmente criada. Assim como no argumento do Quarto Chinês, o ser humano que interage com os papéis não sabe nada de chinês, na biblioteca o algoritmo não sabe o que é certo ou errado, ele só codifica ou decodifica os dados. Nós, os humanos, damos o valor à informação.

E só podemos dizer que uma previsão foi acertada, depois que ela se tornar verdade. Está salvo o determinismo.


Links:

A Biblioteca de Babel digital – https://libraryofbabel.info/ (não parece funcionar muito bem com Safari)

Tradução do conto de Borges para português, sem nome do tradutor – http://site.ufvjm.edu.br/cafeliterario/a-biblioteca-de-babel-jorge-luis-borges/

Conto do Borges original (em Espanhol) – http://www.literaberinto.com/vueltamundo/bibliotecaborges.htm

Outras fontes:

http://flavorwire.com/515783/brooklyn-author-recreates-borges-library-of-babel-as-infinite-website

https://pt.wikipedia.org/wiki/Quarto_chinês

https://www.universetoday.com/36302/atoms-in-the-universe/

Messages For The Future – YouTube

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